Homenageado desta edição do Festival de Gramado com o troféu Oscarito, Reginaldo Faria, 72 anos
Homenageado desta edição do Festival de Gramado com o troféu Oscarito, Reginaldo Faria, 72 anos, "O cinema brasileiro está de certa forma estagnado, embora seja um celeiro de realizadores", apontou.
 
Acompanhado dos três filhos – Régis, Marcelo e Carlos André –, da  mulher e de dois irmãos, Rogério e o cineasta Roberto Farias, Reginaldo mostrou desconforto com a sala lotada de jornalistas, mesmo escondido atrás de óculos escuros. "Estou acostumado a gravar novela, filmes, mas nunca vi tanta câmera na minha vida, estou com medo."
O clã Farias talvez seja o maior conglomerado familiar da história do audiovisual brasileiro. A maioria dos parentes diretos está ligada ao setor, inclusive os filhos de Roberto – Maurício, Lui e Mauro, todos diretores – e os do próprio Reginaldo. "Sempre trabalhamos juntos, meus pais, meus irmãos, nossos filhos. É uma profissão que fascina."
Na ocasião, o ator lembrou os primórdios da carreira, ao lado de Roberto, com o qual teve seu primeiro sucesso, o clássico "O Assalto ao Trem Pagador" (1962). Além de 40 novelas, no total são 53 filmes no currículo, seja na frente – como o fenômeno "Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia" e o emblemático "Pra Frente Brasil", de 1982 – ou atrás das câmeras, caso de "Os Paqueras" e "Barra Pesada". "Todos os filmes que dirigi fizeram sucesso", garantiu.
Amor pelo cinema
A vontade de voltar a comandar um set de filmagens esbarra, conforme Reginaldo, não só na distribuição, mas também na exibição. "As salas estão diminuindo, em número e tamanho, e as cotas para filmes brasileiros nas telas são mínimas. Já ocupamos 70% do mercado e hoje, não passamos de 20%."
Mais do que isso, o ator criticou o modo como os recursos são empregados atualmente. "Existe uma forma de censura velada na nossa democracia", denunciou.
Segundo ele, as comissões de editais e profissionais de empresas privadas se sentem no direito de interferir nos projetos, inclusive no elenco, para garantir que a produção seja bem-sucedida no mercado.
"Isso é assustador", definiu. "Onde está a criatividade, a liberdade de expressão? A gente não faz cinema para fazer sucesso, mas porque ama. Nós entramos pelo caminho errado de só fazer comédia e filme policial."
 
"Somos da época em que não se tinha nenhum incentivo fiscal; era preciso vender a bicicleta, pedir empréstimo no banco ou ir atrás de agiota para fazer um filme", prosseguiu Roberto Farias, verdadeira lenda do cinema nacional, ex-presidente da Embrafilme.
"Hoje, os recursos são concedidos por terceiros, que se acham no direito de definir os filmes que devem ser feitos. A gente, que ajudou a construir o que se vê aí, precisa se submeter a pessoas que nunca deram o sangue para fazer cinema", desabafou.
Isso sem falar na disparidade entre investimento público e retorno. Roberto afirmou que, dos R$ 200 milhões repassados pelo governo anualmente para a produção de cinema, menos de R$ 20 milhões retornam em forma de receita.
"Esse dinheiro não está sendo bem empregado. O Cinema Novo foi feito todo com dinheiro emprestado do banco e ninguém ficou devendo", declarou.
"Precisamos chegar a um modelo de cinema que não dependa mais do governo, que seja competitivo e possa conquistar seu próprio mercado."