A derrota de Mussavani, o candidato presidencial “reformista” dado antecipadamente como vencedor pelo ocidente, por uma diferença de mais de 11 milhões de votos, levou o caos às ruas e bairros de Teerão frequentados pelas classes ricas. E rapidamente os líderes ocidentais que até serem conhecidos os resultados das eleições não tinham vislumbrado qualquer indício real ou imaginário de fraude, descobriram que afinal as eleições tinham sido manipuladas. Eles, que durante meses andaram a “fabricar” a derrota do “louco” Ahmadinejad inventariando os fracassos da sua governação, as dificuldades económicas provocadas pela sua teimosia em “desafiar” o ocidente e prosseguir o programa nuclear, em contraponto aos apoios de religiosos, militares, comerciantes, mulheres e jovens a Moussavi.
O que está em curso no Irão é uma guerra de classes. Ainda que sob a capa da “abertura” religiosa, estamos perante algo de mais profundo que uma simples luta pelo poder entre facções do regime teocrático que governa o Irão, ou uma oposição entre os campos e as cidades como defendem alguns analistas. Em confronto estão de facto, de um lado as classes dos negócios, dos profissionais e os estudantes da alta e média burguesia, altamente privilegiadas, falantes do inglês e com acesso aos meios de informação acidentais, seduzidos pelas ideias liberais de Moussavi; e do outro, as classes trabalhadoras, os camponeses, os artesão, os empregados e funcionários públicos que se opõem à privatização das empresas públicas anunciadas pelo candidato “reformista”, a tal fórmula mágica dos liberais (e não só) para resolverem os problemas do desemprego, da inflação e da degradação das condições de vida, que além de não terem resolvido nada mergulharam o capitalismo à actual crise. A distribuição dos votos é reveladora desta polarização entre os debaixo e os de cima: Moussavi ganhou junto das classes capitalistas privilegiadas, naturalmente adeptas das ideais liberais de mercado livre e iniciativa individual; Ahmadinejad junto das classes proletárias e dos pobres, seduzidas pela “economia moral” propalada pelo Islão, de que se faz interprete, que condena a usura e a especulação sem limites, e que também vêem no fortalecimento militar do Irão uma forma de desencorajar qualquer aventura militar dos EUA ou de Israel contra o seu país.
O que acontecer no Irão irá ter sérias repercussões não só na região como no mundo. A continuação de Ahmadinejad na presidência do Irão, certamente que não constitui uma vitória dos deserdados e dos proletários, mas é um sério revés para Israel (o principal fabricante da tese da “fraude eleitoral”) e para os EUA, que vão ter de optar pela via da agressão, defendida pelos sionistas, ou reconhecer que a “ameaça nuclear” iraniana é uma ficção. Se a primeira opção contribui para reforçar os laços do Irão com o Hezbolla e o Hamas, e o consequente agravar a conflitualidade na região e com o mundo islâmico, a segunda significa o enfraquecimento de Israel e a obrigatoriedade de fazer concessões aos palestinianos.
Um sinal de que o império está em desagregação.