Funeral de Irma Dorothy
Coincidindo com a estreia do filme em São Paulo, os jornais noticiaram que havia sido anulado o segundo julgamento que absolveu o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bira, acusado de ser um dos mandantes do assassinato da missionária Dorothy Stang e que foi decretada a sua prisão. Outro acusado de ser um dos mentores do crime, Reginaldo Pereira Galvão, o Taradão, aguarda o julgamento em liberdade. O diretor do filme, o norte-americano Daniel Junge, fez da luta de todos os que estão envolvidos na continuação do trabalho da irmã Dorothy, e que procuram por todos os meios mostrar que o crime foi encomendado por fazendeiros da região, o fio condutor da narrativa. Na verdade, há evidências de que havia um consórcio de fazendeiros para eliminar a missionária. Os advogados de defesa, pagos pelos fazendeiros, procuraram, nos tribunais, circunscrever a culpa aos pistoleiros que dispararam os tiros contra a irmã Dorothy.
A irmã Dorothy lutou por cerca de trinta anos até a sua morte pela implantação de um modelo de assentamento rural que garantisse o manejo sustentável da floresta. Isso desagradou a madeireiros e criadores de gado da região, que devem ser chamados mais apropriadamente de grileiros, pois eles não possuem as escrituras das terras. No filme temos muitas imagens da irmã Dorothy, que além do carisma, revelam uma lucidez impressionante, ou seja, a convicção de que sua luta em defesa das populações carentes e da floresta era uma luta pela vida.
As cenas dos tribunais de júri ocupam boa parte do filme. Elas impressionam sobretudo pelo cinismo dos advogados de defesa dos acusados e pela desfaçatez que eles demonstram ao tentar mostrar a irmã Dorothy como instrumento de uma ação internacional comandada pelos EUA para roubar as riquezas da Amazônia. Esse tipo de discurso nós já conhecemos quando se trata da demarcação de terras indígenas. Haja vista a campanha desencadeada por fazendeiros, setores do exército e pela grande imprensa contra a demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol em Roraima. Nesse sentido, a limitação do filme está no fato de circunscrever a área abrangida pela narrativa ao município de Anapu, no Pará, onde se deu o crime e não mostrar de maneira mais abrangente as interligações dos fazendeiros com as instituições "republicanas" como o exército, a Justiça, a imprensa e os poderes executivos municipais, estaduais e federal.
Fatos acontecidos em 2007, em outra região do estado do Pará, são exemplares desse conluio. Cito as descrições feitas pelos Núcleo de Advogados do Povo da repressão desencadeada pela governadora petista do Pará, Ana Júlia Carepa, contra camponeses que ocupavam vários latifúndios no sul do estado:
"Durante a odiosa operação de guerra contra os camponeses, o Exército chegou até a fechar a rodovia BR-158, entre Redenção e Santa Maria das Barreiras, no sul do Pará, para que as Polícias Militar e Civil cumprissem as barbaridades contra os camponeses e para desocupar 21 latifúndios na região. Esta verdadeira operação de guerra conta com cerca de trezentos policiais do Comando de Missões Especiais (CME) da Polícia Militar, policiais civis, bombeiros militares, Detran e peritos do Centro de Perícia, do Centro Integrado de Operações (CIOP) e do Centro Estratégico Integrado da Secretaria de Segurança Pública do Pará (Segup). A operação utiliza mais de 40 carros, ônibus, quatro helicópteros, e até um motoplanador da PM. A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa - PT, desencadeou essa feroz repressão a partir da campanha encomendada pelos latifundiários, orquestrada pela imprensa reacionária, principalmente pela revista Veja e jornal Folha de S.Paulo, que criminalizam os camponeses tratando-os como 'bandidos', insuflando a repressão contra o povo pobre e protegendo os bandidos latifundiários. Após uma série de reportagens caluniadoras, provocadoras e reacionárias da revista Veja, que tratava os camponeses e o povo do sul do Pará como um 'bando de criminosos' a governadora do PT redobrou os ataques furiosos contra a justa luta camponesa."
As classes dominantes brasileiras demonstram um extraordinário entrosamento quando se trata de reprimir as lutas sociais e o assassinato da irmã Dorothy soma-se a milhares de outros crimes cujas vítimas foram camponeses pobres, sindicalistas rurais, religiosos e advogados de sindicatos rurais. Em sua quase totalidade esses crimes continuam impunes e seus mandantes continuam frequentando os palácios e as colunas sociais dos grandes jornais.
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