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07 Feb 2012

A genética do cabaquismo Destacado

por Política Operária (Paulo Jorge Ambrósio)
Miércoles, 08 de Febrero de 2012 00:53
É preciso recuar a 1985, à pri­meira maioria relativa do PSD de Cavaco, e ao frenesi neoliberal que então começava vertiginoso, a conta­giar viciosamente a média e pequena burguesia lusas, até então sem luz ao fundo do túnel, para entender a lógica de classe das queixas de cavaco.

Chocaram-se muitos, gente hu­milde, com os queixumes públicos do presidente aparentemente angus­tiado com o facto de as suas reformas de professor universitário e funcio­ná­rio de topo do Banco de Portu­gal não lhe chegar para pagar as con­tas da velhice. Outros mais avisados, em menor número, foram ver a declara­ção cavacal de IRS de 2010 e denun­ciaram a hipocrisia e má-fé de Cava­co Silva ao ocultar que somadas, as reformas ultrapassavam os 10 mil euros, “esquecendo-se” também de mencionar os outros generosos ren­dimentos e benesses inerentes à fun­ção presidencial, aquando do desa­bafo público.

Outros ainda, platonicamente amo­finados, desataram a fazer ape­los e petições propondo a sua desti­tuição do cargo. Por último, alguns patuscos passariam à acção reco­lhendo sacos e cabazes alimentares de primeira necessidade para ofertá‑los em mão ao Palácio de Belém.

Todos, porém, ao não darem uso à memória (relaxe tipicamente por­tuguês), passaram ao lado da explica­ção de classe de mais este “caso” do cavaquismo.

Sim, é preciso recuar a 1985, à pri­meira maioria relativa do PSD de Cavaco, e ao frenesi neoliberal que então começava vertiginoso, a conta­giar  viciosamente a média e pequena burguesia lusas, até então sem luz ao fundo do túnel.

Era o tempo do quase estupefa­ciente slogan cavaquista “fazer de cada português um proprie­tário”, e dos milhões de con­tos da CEE que, às revoadas, cá entravam a espaço de me­ses, quase que a fundo perdi­do, cegando quase todos, mas de facto abatendo firme e im­placavelmente os sectores pro­dutivos primário e secun­dário e, colateralmente, crian­do novos-ricos, muitos e no­vos negó­cios fugazes, novas mansões, motos, jipes e iates de luxo – tudo isto sob uma grande aura alaranjada que co­meça a embebedar as próprias fran­jas populares.

Daí – nem poderia ser de outra maneira – em 1987 a maioria cava­quista relativa passa a absoluta. O res­to da saga é conhecida. A elite de serviço no poder de Estado banque­teia-se alar­vemente, começa a perder a noção de toda a compostura pú­blica, adqui­re a sensação de inimpu­tabilidade e protagoniza um rol coerente de mal­feitorias, algumas com características criminais gravíssi­mas mas obvia­mente sem conse­quências, relatadas na imprensa da época:

- o ministro André Gonçalves Pe­reira lamuria-se porque o que ga­nha não lhe dá para os charutos;

- o primeiro comissário português na CEE, na altura Cardoso e Cu­nha, com 1.200 contos/mês, dá‑lhe as mesmas voltas;

- o ministro Dias Loureiro põe jipes da Guarda Fiscal a fazer-lhe gra­ciosamente a mudança de casa;

- a ministra Leonor Beleza protago­niza o crime sem castigo da com­pra de lotes de sangue contami­nado com HIV que mataria muitos doentes em transfusão. Depois de uma retirada para Riba Fria, reapa­rece mais tarde, transitando, após fugaz passagem pela política, para a presidência da administração da Fundação Champalimaud;

- o ministro Arlindo de Carvalho ain­da hoje é apontado como res­ponsável pela intoxicação com alu­mí­nio e morte de 22 doentes de hemodiálise do Hospital de Évo­ra; o ministro Carlos Borrego faz graçolas com estes 22 mortos;

- o ministro Miguel Cadilhe compra andar nas Amoreiras sem pagar sisa;

- Isaltino Morais, o “autarca mo­de­lo” desvia para depósito na Suí­ça, na conta de um sobrinho taxis­ta, altas maquias de estranhas prove­niências. Anos depois aparece en­volvido, tal como outros cavaquis­tas notórios e o próprio Cavaco, nas vigarices do BPN. Permanece em liberdade;

- “Duarte Lima, com dolo de matar, desferiu disparos de arma de fogo contra a vítima Rosalina que, por sua natureza, sede e extensão, fo­ram a causa de sua morte. O crime foi cometido por motivo torpe, pois o denunciado matou a vítima justamente porque ela não quis assinar declaração no sentido de que ele não possuía qualquer valor transferido por ela, não satisfa­zendo os interesses financeiros do denunciado, o que demonstra sua ausência de sensibilidade e de­monstra sua depravação moral.” - Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (http://www.jn.pt/infos/pdf/Acusacao_Duarte_Lima.pdf).

Cavaquismo, elite demodée, ino­fensiva e risível ou gangue burguês-‑mafioso de elevado grau de perigo­sidade?

A conclusão ficará por conta dos leitores.

Ultima modificacion el Miércoles, 08 de Febrero de 2012 10:02


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