Chocaram-se muitos, gente humilde, com os queixumes públicos do presidente aparentemente angustiado com o facto de as suas reformas de professor universitário e funcionário de topo do Banco de Portugal não lhe chegar para pagar as contas da velhice. Outros mais avisados, em menor número, foram ver a declaração cavacal de IRS de 2010 e denunciaram a hipocrisia e má-fé de Cavaco Silva ao ocultar que somadas, as reformas ultrapassavam os 10 mil euros, “esquecendo-se” também de mencionar os outros generosos rendimentos e benesses inerentes à função presidencial, aquando do desabafo público.
Outros ainda, platonicamente amofinados, desataram a fazer apelos e petições propondo a sua destituição do cargo. Por último, alguns patuscos passariam à acção recolhendo sacos e cabazes alimentares de primeira necessidade para ofertá‑los em mão ao Palácio de Belém.
Todos, porém, ao não darem uso à memória (relaxe tipicamente português), passaram ao lado da explicação de classe de mais este “caso” do cavaquismo.
Sim, é preciso recuar a 1985, à primeira maioria relativa do PSD de Cavaco, e ao frenesi neoliberal que então começava vertiginoso, a contagiar viciosamente a média e pequena burguesia lusas, até então sem luz ao fundo do túnel.
Era o tempo do quase estupefaciente slogan cavaquista “fazer de cada português um proprietário”, e dos milhões de contos da CEE que, às revoadas, cá entravam a espaço de meses, quase que a fundo perdido, cegando quase todos, mas de facto abatendo firme e implacavelmente os sectores produtivos primário e secundário e, colateralmente, criando novos-ricos, muitos e novos negócios fugazes, novas mansões, motos, jipes e iates de luxo – tudo isto sob uma grande aura alaranjada que começa a embebedar as próprias franjas populares.
Daí – nem poderia ser de outra maneira – em 1987 a maioria cavaquista relativa passa a absoluta. O resto da saga é conhecida. A elite de serviço no poder de Estado banqueteia-se alarvemente, começa a perder a noção de toda a compostura pública, adquire a sensação de inimputabilidade e protagoniza um rol coerente de malfeitorias, algumas com características criminais gravíssimas mas obviamente sem consequências, relatadas na imprensa da época:
- o ministro André Gonçalves Pereira lamuria-se porque o que ganha não lhe dá para os charutos;
- o primeiro comissário português na CEE, na altura Cardoso e Cunha, com 1.200 contos/mês, dá‑lhe as mesmas voltas;
- o ministro Dias Loureiro põe jipes da Guarda Fiscal a fazer-lhe graciosamente a mudança de casa;
- a ministra Leonor Beleza protagoniza o crime sem castigo da compra de lotes de sangue contaminado com HIV que mataria muitos doentes em transfusão. Depois de uma retirada para Riba Fria, reaparece mais tarde, transitando, após fugaz passagem pela política, para a presidência da administração da Fundação Champalimaud;
- o ministro Arlindo de Carvalho ainda hoje é apontado como responsável pela intoxicação com alumínio e morte de 22 doentes de hemodiálise do Hospital de Évora; o ministro Carlos Borrego faz graçolas com estes 22 mortos;
- o ministro Miguel Cadilhe compra andar nas Amoreiras sem pagar sisa;
- Isaltino Morais, o “autarca modelo” desvia para depósito na Suíça, na conta de um sobrinho taxista, altas maquias de estranhas proveniências. Anos depois aparece envolvido, tal como outros cavaquistas notórios e o próprio Cavaco, nas vigarices do BPN. Permanece em liberdade;
- “Duarte Lima, com dolo de matar, desferiu disparos de arma de fogo contra a vítima Rosalina que, por sua natureza, sede e extensão, foram a causa de sua morte. O crime foi cometido por motivo torpe, pois o denunciado matou a vítima justamente porque ela não quis assinar declaração no sentido de que ele não possuía qualquer valor transferido por ela, não satisfazendo os interesses financeiros do denunciado, o que demonstra sua ausência de sensibilidade e demonstra sua depravação moral.” - Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (http://www.jn.pt/infos/pdf/Acusacao_Duarte_Lima.pdf).
Cavaquismo, elite demodée, inofensiva e risível ou gangue burguês-‑mafioso de elevado grau de perigosidade?
A conclusão ficará por conta dos leitores.
